Mercadão centenário guarda tradição mineira, histórias e atrai visitantes do Brasil e exterior

Prédio histórico é ponto de encontro para moradores e turistas e abriga famílias que construíram suas vidas atrás dos balcões; Terra do Mandu encontrou até uma visitante da França durante gravação nesta semana.

Iago Almeida / 30 setembro 2026

Quem entra no Mercado Municipal de Pouso Alegre, no Sul de Minas, encontra muito mais do que bancas de alimentos. Entre queijos, doces, frutas, cachaças, artesanatos, roupas, chapéus e tantos outros produtos, também estão histórias de famílias que passaram décadas trabalhando no mesmo lugar e de clientes que continuam voltando ao endereço depois de 30, 40 ou até 60 anos.

Construído em 1893, o Mercadão faz parte da história da cidade e, ao longo de mais de um século, passou por diferentes modificações. O que permaneceu é a característica de ser um espaço de encontro, onde moradores e visitantes circulam pelos corredores em busca de produtos, sabores e também de boas conversas.

“Porque aqui nós somos uma família. Nós somos uma família que foi criando os filhos com o tempo, foi criando, as crianças foram crescendo. Então a gente considera que o Mercadão é uma família”, conta Dinha Marques, empresária e proprietária de uma banca de frutas, verduras e legumes.

A banca, visitada durante a reportagem, tem cerca de 60 anos de tradição no local. A relação construída com os clientes é uma das marcas desse comércio. “Temos clientes de 35, 40 anos até hoje, que a gente atende com o maior carinho e dedicação”, relata a comerciante.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Do fumo de rolo aos produtos tradicionais

Entre os produtos que chamam a atenção de quem percorre os corredores está o fumo de rolo. A tradição permanece, mas a variedade de produtos e os diferentes usos fizeram com que ele continuasse presente nas bancas.

Há opções de fumo em rolo, desfiado e saborizado. Segundo os comerciantes, o produto é procurado por diferentes públicos, desde pessoas que fazem uso tradicional do fumo até consumidores que buscam outras formas de utilização, como preparo de banhos e cuidados com plantas.

A banca também representa uma história familiar. A proprietária trabalha no local ao lado do pai desde que a família adquiriu o espaço, em 1991.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Um amor que começou entre os corredores

No Mercadão, há também histórias que começaram atrás dos balcões e acabaram se transformando em uma vida inteira juntos. Miguel e Balbina completaram 48 anos de casamento e também 48 anos de trabalho no Mercado Municipal. A história dos dois começou justamente ali.

Miguel trabalhava em um supermercado ao lado do mercado e costumava passar pelo local. Balbina também frequentava o espaço. Os dois moravam no mesmo bairro e, entre conversas e encontros cotidianos, começaram uma relação que atravessaria décadas.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

“Começamos aqui dentro do mercado. Eu trabalhava no supermercado do lado e passava o tempo por aqui. A gente conversava, batia um papo. A gente morava no mesmo bairro”, lembra Miguel.

Depois vieram os filhos, que também passaram a ajudar no comércio. O trabalho, que inicialmente era uma forma de sustentar a família, acabou se tornando parte da própria história familiar.

Clientes que viraram amigos

A relação entre comerciantes e clientes também ultrapassa a simples compra e venda. Um dos exemplos é seu Eli, que mantém uma amizade de décadas com a família de Miguel e Balbina. Ele conta que é cliente há cerca de 40 anos, mas a amizade é ainda mais antiga.

“Eu passo aqui todo dia. Todo dia eu passo aqui”, conta. As conversas, os encontros e até o costume de tomar uma cachaça fazem parte da rotina. “Sou cliente dele e amigo. Uma amizade muito bonita desde criança. Nós fomos criados praticamente juntos”, relata.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Queijo, doce e sabores de Minas

Entre os produtos mais procurados pelos turistas estão os queijos. Fresco, meia-cura e outras variedades são levados por visitantes para outras cidades e estados. A tradição também aparece em produtos diferentes, como o picolé de queijo, produzido pela irmã de Balbina.

Além dos queijos, doces e outros alimentos típicos fazem parte do roteiro de quem visita o mercado. Para muitos turistas, a passagem pelo local também é uma oportunidade de levar para casa sabores associados à culinária mineira.

E não é apenas gente da região que circula por ali. Comerciantes relatam receber visitantes de diferentes cidades do Sul de Minas, do estado de São Paulo e de outras partes do país.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Petiscos e cachaça também fazem parte da tradição

Entre os boxes mais antigos está o Bar do Tibúrcio, que funciona desde 1969 e mantém a tradição dos petiscos. No cardápio aparecem torresmo, linguiça defumada, pé e joelho de porco, panceta, língua de vaca, fígado acebolado, peixe e queijo, entre outros tira-gostos que variam de acordo com o dia.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

E, para acompanhar, a cachaça também faz parte da experiência. A tradição da bebida também passa pela família. Uma das cachaças comercializadas é produzida por um primo da família, em uma receita que, segundo os comerciantes, tem mais de 50 anos e vem sendo mantida de geração em geração.

“Eu falo para todo mundo que o berço da gente foi o mercado”, conta Pomarola, que está praticamente desde o nascimento ligado ao espaço.

A relação é tão antiga que ele se aproxima dos 50 anos de vida tendo o Mercadão como cenário. “É praticamente uma vida que a gente dedica a cada dia, um dia a mais”, afirma.

Artesanato que conta a história da cidade

A variedade do Mercadão não se limita à alimentação. Pelos corredores também é possível encontrar roupas, calçados, chapéus e peças de artesanato que representam a região.

Entre os trabalhos está uma maquete da Catedral de Pouso Alegre, construída artesanalmente com materiais recicláveis, como papelão, palitos de dente e palitos de churrasco.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

A produção da peça levou cerca de um ano e reproduz detalhes da igreja, transformando um dos símbolos da cidade em uma obra feita à mão.

Tradição que também chega de outros países

O Mercadão continua atraindo quem nasceu em Pouso Alegre, moradores da região e pessoas que vivem longe da cidade. Gustavo, que já morou em Pouso Alegre, voltou ao mercado para matar a saudade acompanhado da namorada, Chloe, que é francesa e estava conhecendo o espaço.

Para ele, apresentar o Mercadão também era uma forma de mostrar um pouco da cultura mineira. “É tradição, cultura mineira. E o sabor”, resume.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Entre os produtos que chamaram a atenção do casal estavam frutas e outros alimentos que, segundo Gustavo, apresentam uma variedade maior do que a encontrada no país de origem de Chloe. Queijo, doce de leite, cachaça e outros sabores típicos aparecem, para ele, como uma espécie de lembrança afetiva da cidade.

“Gosto, cachaça, queijo, doce de leite, tudo isso é muito bom e está aqui no coração, nostalgia pura. E ainda encontra tudo isso num lugar só”, afirma.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Um mercado feito de produtos, mas também de pessoas

Com mais de um século de história, o Mercado Municipal de Pouso Alegre passou por transformações, acompanhou o crescimento da cidade e viu diferentes gerações ocuparem seus boxes.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

Mas algumas coisas continuam iguais: o encontro entre comerciantes e clientes, as receitas e produtos tradicionais, as conversas nos corredores e as histórias familiares que continuam sendo construídas atrás dos balcões.

Para quem chega pela primeira vez, o Mercadão pode ser um lugar para comprar queijo, doce, cachaça ou qualquer outro produto. Para quem frequenta há décadas, ele representa também amizade, trabalho, família e memória.

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Foto: Iago Almeida/Terra do Mandu

É um pedaço da história de Pouso Alegre que continua sendo vivido todos os dias.

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