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Uma em 100 mil: Técnica de enfermagem doa medula óssea para menino de 5 anos

Magson Gomes
14/08/2020

‘Eu tinha feito o cadastro há 12 anos para ajudar uma moça na praça de Pouso Alegre’. A ‘moça da praça’ é Renata Couto, que está em processo de recuperação após receber o transplante do próprio filho, 50% compatível com ela.

Doar medula óssea é um ato simples que pode salvar uma vida. O cadastro para ser um doador voluntário é fácil e pode é feito em qualquer hemocentro. Difícil é encontrar alguém compatível, precisando de um transplante de medula. Isso ocorre uma vez, a cada 100 mil pessoas.

A técnica de enfermagem Micheli Aparecida dos Santos, de 32 anos, de Pouso Alegre, no Sul de Minas, entrou para essa louvável estatística de amor ao próximo. Na semana passada, ela fez a doação de medula óssea em um hospital de Niterói (RJ), região de onde é o paciente que vai receber o transplante.

Pelo protocolo, o doador não fica sabendo quem é o receptor da medula. A equipe médica apenas disse a Micheli que ela estaria salvando a vida de uma criança, que seria um menino, de 05 anos de idade.

A técnica de enfermagem em duas fotos. A segunda já no hospital onde retirou a medula. Fotos: reprodução

Cadastro feito há 12 anos

Quando Micheli se candidatou para ser uma doadora de medula óssea o seu receptor nem era nascido. Lá em 2008, quando passava pela Praça Senador José Bento, Centro de Pouso Alegre, ela viu que estava acontecendo uma campanha em busca de doadores de medula óssea. A campanha era organizada pela Renata Couto, paciente com câncer a procura de um doador compatível.

“Eu só me lembro que parei para fazer o cadastro para ajudar uma moça nova. Fiquei sensibilizada com a história de uma moça da minha idade. Agora, com isso tudo, que me falaram que o nome dela era Renata”, recorda Micheli.

O cadastro da Micheli foi para o REDOME, que é o Registro Nacional dos Doadores Voluntários de Medula Óssea. Passados 12 anos, o REDOME entrou em contato avisando que Micheli era a esperança para alguém com câncer. A técnica de enfermagem tinha mudado de endereço e não atualizado no REDOME. Mas mantinha o mesmo número de celular, o que permitiu que fosse encontrada.

Micheli fez uma nova coleta de sangue no Hemocentro Regional de Pouso Alegre para confirmar a compatibilidade. “Perguntaram se eu realmente queria prosseguir. Eu disse sim de imediato. O não nunca passou pela minha cabeça”, afirma Micheli.

Micheli seguiu para Niterói, fez mais uma bateria de exames para saber seu estado de saúde, antes da coleta da medula, além de novas medidas de segurança durante a pandemia da Covid-19. Foi aí quem um dos médicos contou para ela que uma criança que receberia a doação.

“Ele comentou que não poderia falar muita coisa. Disse que o que iriam retirar de mim seria muito pouco, considerando meu peso e minha altura. E quem iria receber é uma criança. Quando ele falou isso, eu perdi o chão; fiquei muito emocionada”, conta.

“A pessoa passa a existir para você, mesmo sem você conhecê-la. Rezei e pedi bastante para que tudo desse certo nesses exames para ocorrer o transplante. É uma emoção que não tem palavras para descrever”.

“Não é você dar a vida para alguém. Também não é salvar, porque eu acho que quem salva é Deus. Mas, saber que você foi um instrumento Dele para isso. Meu cadastro estava lá esperando por alguém que iria precisar”, se emociona Micheli.

Com todos os exames okay, Micheli se internou em um dia, fez a coleta da medula e recebeu alta 24 horas depois.

“Eu só fiquei sabendo que era um menino depois da doação, quando eu já estava de alta. Que aí a médica falou: ‘você fez um bem danado para um menino, viu.’ Até então, eu sabia que era uma criança de cinco anos”.

A quantidade de sangue retirada na técnica de enfermagem foi nove vezes maior do que o garoto precisava. O restante ficará congelado em caso de nova necessidade. Foto: reprodução Micheli

Segundo o protocolo do REDOME, após seis meses, Micheli poderá enviar um e-mail para saber se deu certo o transplante. “Se ambas as partes quiserem se conhecer, o REDOME faz essa ponte. Tenho muita fé que vai dar certo o transplante e quero conhecer esse menino”, diz a técnica de enfermagem.

Dona da campanha na praça recebeu medula do próprio filho

A assistente de Recursos Humanos, Renata Couto, responsável pela campanha onde Micheli se cadastrou para ser uma possível doadora de medula óssea, ficou muito feliz e emocionada ao saber da história da técnica de enfermagem. Micheli procurou Renata para contar a boa notícia.

“Quando eu conversei com ela parecia que eu tremia toda e chorava de emoção. É muita gratidão por tudo isso. Ela falou que fez o cadastro para ajudar a moça da praça. Foi melhor apelido que recebi em toda minha vida”, diz Renata.

Renata descobriu um câncer do tipo linfoma de Hodgkin em 2004, aos 19 anos. Ela visitou várias cidades mineiras, fazendo a campanha para cadastro de doadores voluntários de medula óssea.

Renata passou por 11 cirurgias e diversos tratamentos. Sem conseguir o doador 100% compatível de medula, o câncer reaparecia.

No ano passado, Renata se submeteu a um novo procedimento. Ela fez um transplante haploidêntico, onde o doador da medula óssea foi o próprio filho, que é 50% compatível com a mãe. Essa história foi contada aqui no Terra do Mandu.

Renata Couto com o filho doador Vinycius na semana do transplante – reprodução

Renata ainda está no processo pós-transplante, tendo acompanhamento médico até a reconstituição total da nova medula.

Isso que aconteceu com a Micheli é importante para as pessoas verem a importância de se cadastrar para ser um doador de medula óssea.

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TV Terra do Mandu