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As tradições e os festivais

Mariana Sayad
17/07/2019

Jornalista, gestora cultural
Editora do site Cultura não é Perfumaria 
Co-fundadora do Observatório Luneta

Toda tradição é uma invenção. Esta frase pode parecer uma crítica às tradições, mas é apenas um fato. Os costumes e culturas que são perpetuadas por pessoas e comunidades viram tradições com o passar do tempo, pois passam a fazer parte do cotidiano, com o tempo resgatam memórias, contam histórias, relembram o passado e viram tradição. Então, é uma invenção, no melhor sentido da palavra.

 

Toda tradição deve ser reinventada. Mais uma vez, não é uma crítica, é uma constatação, que não é da autora deste artigo, mas de grandes intelectuais que estudam isso há anos. A tradição é viva e não estática no tempo. Se as tradições vêm de culturas e costumes de comunidades, estas estão em mudanças constantes. A cada nova geração, novos repertórios, novas histórias passam a fazer parte do cotidiano e das tradições. Então, se ela não for reinventada, perde o sentido e vai sendo esquecida.

Toda essa introdução para chegar aos festivais que se proliferam durante no inverno nas montanhas. Trabalham muito na ideia da experiência, algo que as pessoas têm buscado com muita frequência atualmente. Muitos têm como principal objetivo fomentar o turismo local, porém, quando este é motivador principal, há uma desconexão perigosa com o fomento de produtores locais, ou seja, há a preocupação de girar apenas no turismo receptivo. Esse tipo de ação não leva em consideração a cultura local, não comunica a cidade, ou seja, não traz benefícios duradouros para a economia local, apenas pontuais.

Imagem ilustrativa

As cidades mineiras têm cultura, histórias, bens intangíveis, tradições de sobra. Tudo isso são a base da economia criativa, ou seja, se é economia gera valor. Há festivais na região tradicionais, onde se reinventam para se manterem sempre atuais. Estes festivais trabalham a identidade local, são feitos para as pessoas da cidade e, por essa autenticidade, geram muito valor, trazem o melhor do turismo, ou seja, pessoas que valorizam o local, a cultura regional e fazem questão de consumir as coisas produzidas pela cidade. É a verdadeira experiência.

Ao mesmo tempo, há festivais inventados, pensados em apenas um objetivo, aproveitar do turismo de inverno, sem muitas preocupações com a cultura, com os produtores locais, com a identidade da cidade. É a famosa “gourmetização”, ou seja, vender uma experiência sem contexto nenhum, sem história e não é pensado para as pessoas da cidade, mas sim, para quem vem de fora. Com o tempo, ou se reinventam ou desaparecem.

Sobre a colunista

Foto: Arquivo pessoal

Mariana Sayad escreve quinzenalmente sobre cultura, arte, políticas culturais de Pouso Alegre e região aqui, no Terra do Mandu. Jornalista de formação, gestora cultural há mais de 15 anos. Tem MBA em Bens Culturais pela FGV-SP e especialização em História, Sociedade e Cultura pela PUC-SP. É natural de São Paulo, mas mora em Pouso Alegre deste 2013, onde já trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura, entre 2015 e 2016.

Atualmente, é editora do site Cultura não é Perfumaria e, ao lado de Júlia Lopes, co-fundadora da empresa Observatório Luneta, que é especializada em Economia Criativa.

 

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