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Empreendedores transformam propriedades rurais em experiências turísticas em Delfim Moreira

Bode do cabelo cacheado, complexo de cachoeiras, pedra que chora, mirante, tour por olivais. Impulsionados pelo Sebrae, empresários fortalecem a identidade da Serra da Mantiqueira mineira

Iago Almeida / 06 junho 2026

No alto da Serra da Mantiqueira, entre rios de águas cristalinas, montanhas cobertas por Mata Atlântica e temperaturas que frequentemente ficam abaixo de zero durante o inverno, uma transformação silenciosa vem redesenhando o turismo em Delfim Moreira, no Sul de Minas Gerais.

Com pouco mais de oito mil habitantes e mais de 20 bairros rurais, o município sempre teve sua economia ligada à agricultura e à pecuária. Mas, nos últimos anos, produtores e empresários descobriram uma nova vocação: transformar a própria rotina do campo em experiências capazes de atrair visitantes em busca de algo cada vez mais valorizado pelo turismo moderno — autenticidade.

A tendência acompanha um movimento mundial conhecido como turismo de experiências. Mais do que contemplar paisagens ou se hospedar em um destino, o visitante quer participar, aprender, sentir e vivenciar o cotidiano local.

“Hoje o turista não quer apenas comprar um produto ou ficar hospedado em um chalé. Ele quer viver algo diferente daquilo que faz no dia a dia”, enfatiza Samara Pineschi, empresária e administradora da Fazenda Boa Esperança.

Essa mudança de comportamento abriu caminho para que empreendedores locais enxergassem novas oportunidades dentro das próprias propriedades.

Foto: Iago Almeida

Da carne ao Turismo Gastronômico

No bairro rural Barreirinho, uma das histórias mais emblemáticas dessa transformação começou de forma simples. O que era apenas um açougue familiar se tornou um dos empreendimentos gastronômicos mais conhecidos da região.

A proprietária do Restaurante Serra Clara, Josélia Lemes, lembra que tudo começou com o trabalho no balcão de carnes. Aos poucos vieram a churrasqueira, a costela no bafo, os eventos gastronômicos e, posteriormente, a construção de um mirante com vista privilegiada para as montanhas da Mantiqueira.

Foto: Iago Almeida

Hoje, além de experimentar pratos típicos preparados com receitas da casa, os visitantes encontram um espaço pensado para contemplar a paisagem e viver a atmosfera rural da região.

“O restaurante foi crescendo aos poucos. Hoje temos dois espaços e esse mirante, que construímos justamente para que as pessoas possam aproveitar ainda mais essa vista maravilhosa”, conta Josélia, que também é chefe de cozinha.

O queijo que virou experiência e o bode de cabelos cacheados

Na Fazenda Paineiras, a produção de queijos artesanais de cabra deixou de ser apenas uma atividade rural para se transformar em uma experiência completa para os visitantes. Quem chega à propriedade não encontra apenas uma queijaria. Encontra uma imersão no cotidiano da fazenda.

“A pessoa vem, participa de uma oficina de queijo, faz o passeio pela propriedade comigo, conhece a história da fazenda, aprende sobre o manejo dos animais, participa da degustação e ainda almoça aqui, na minha casa”, explica a proprietária, Clara Antoniazzi, especialista em produção de queijos.

Foto: Iago Almeida

O roteiro inclui visitas ao Capril, contato com os animais e acesso às áreas de produção, onde os visitantes acompanham de perto as etapas de fabricação dos queijos.

Entre os personagens mais populares da fazenda está um bode de pelos cacheados, que se tornou uma atração à parte. “Eu tenho um bode cacheado, gente. Ele tem um topete”, brinca a empreendedora. E o seu nome é Cauby, em homenagem à Cauby Peixoto.

Foto: Iago Almeida

A experiência termina entre câmaras de maturação e queijos premiados, produzidos a partir de técnicas artesanais e do conhecimento construído ao longo dos anos. Mais do que vender um produto, a Fazenda Paineiras passou a compartilhar histórias, conhecimento e vivências que aproximam os visitantes da realidade do campo.

Dos olivais ao azeite premiado

Poucos quilômetros adiante, a Fazenda Verde Oliva encontrou no turismo uma forma de agregar valor à produção agrícola e aproximar os visitantes da origem dos alimentos.

Quem chega à propriedade pode percorrer trilhas em meio aos olivais e plantações de frutas, conhecer o processo produtivo e acompanhar o caminho que vai da lavoura até os produtos comercializados na loja da fazenda.

Foto: Iago Almeida

Ali são produzidos azeites, geleias, conservas e outros itens artesanais que carregam a identidade da Serra da Mantiqueira.

“É muito gratificante ver todo o processo, desde a semente até o produto final. E mais gratificante ainda é receber o retorno dos visitantes e consumidores que valorizam aquilo que a gente produz”, afirma o proprietário da Fazenda Verde Oliva, Luiz Yamaguti.

Além de conhecer os produtos, os turistas têm a oportunidade de entender por que a Mantiqueira se tornou uma das principais regiões produtoras de azeite de oliva do país. Luiz Yamaguti é responsável pela produção do 1º azeite extra virgem biodinâmico da América Latina.

Olivais na Casa Mourad, que inaugurou seu novo espaço neste mês, para receber visitações e turismo de experiências / Foto: Iago Almeida

Segundo o engenheiro agrônomo responsável por olivais em Delfim Moreira e Maria da Fé, as condições climáticas da região são determinantes para a qualidade da produção.

“A oliveira é uma planta de clima temperado e precisa de frio durante o inverno para produzir bem. Aqui na Mantiqueira, em boa parte dos anos, temos as condições necessárias para uma boa florada e uma produção de alta qualidade”, explica Luiz Eugênio Santana Matos.

Luiz Yamaguti destaca que a combinação entre altitude, frio, chuva e incidência solar influencia diretamente o resultado da safra. “Quando todas as condições climáticas acontecem no momento certo, conseguimos obter uma produção excelente e azeites de altíssima qualidade”, completa.

O resultado desse trabalho são produtos premiados nacionalmente e uma atividade que vem ajudando a consolidar a Serra da Mantiqueira como referência brasileira em olivicultura.

Foto: Iago Almeida

Onde a natureza se transforma em experiência

A relação entre turismo e preservação ambiental ganha contornos especiais na Fazenda Boa Esperança. Localizada a 1.500 metros de altitude, a propriedade reúne 211 hectares de Mata Atlântica preservada e se transformou em um dos principais exemplos de turismo de natureza da Serra da Mantiqueira.

O que antes era apenas uma área admirada por moradores e visitantes ocasionais deu origem a um complexo turístico que combina hospedagem, aventura, contemplação e bem-estar.

Foto: Iago Almeida

Ao longo da propriedade, os visitantes encontram oito cachoeiras cercadas por vegetação nativa, trilhas em meio à floresta, chalés integrados à paisagem, sauna, piscina, espaços para massagens, áreas de convivência e eventos realizados em plena conexão com a natureza.

Entre os atrativos mais conhecidos está a Pedra que Chora, uma formação natural que libera água durante todo o ano e se tornou um dos locais mais procurados por quem busca contemplação, espiritualidade e momentos de reflexão em meio às montanhas.

Foto: Iago Almeida

Cercada por araucárias centenárias, rios cristalinos e uma rica biodiversidade, a fazenda convida o visitante a desacelerar e experimentar um ritmo diferente daquele imposto pelas grandes cidades.

“Aqui as experiências são um convite para uma imersão na natureza. É um momento para relaxar, contemplar, desacelerar e se reconectar consigo mesmo e com o ambiente ao redor”, explica a guardiã da Fazenda, Samara Pineschi.

Mais do que oferecer hospedagem, a Fazenda Boa Esperança transformou a própria paisagem em protagonista da experiência turística, mostrando como conservação ambiental e desenvolvimento econômico podem caminhar lado a lado na Serra da Mantiqueira.

Foto: Iago Almeida

Capacitação e desenvolvimento

Embora cada propriedade tenha seguido um caminho diferente, todas compartilham um elemento em comum: o investimento em qualificação, gestão e desenvolvimento de experiências turísticas.

Em Delfim Moreira/MG, esse processo ganhou força a partir de ações de capacitação realizadas em parceria com o Sebrae Minas, por meio do programa Check-in Turismo.

Casa Mourad inaugurou seu novo espaço neste mês para receber visitações e turismo de experiências / Foto: Iago Almeida

O trabalho envolveu consultorias, cursos, melhoria da gestão dos empreendimentos e a criação do Catálogo de Experiências Turísticas de Delfim Moreira, reunindo iniciativas ligadas à gastronomia, natureza, cultura e produção rural.

Para os empreendedores, os resultados foram significativos. “Foi um divisor de águas. Fiz consultorias de gestão financeira, marketing e diversas capacitações que ajudaram a preparar o negócio para crescer”, relata Josélia Lemes.

Na Fazenda Boa Esperança, a percepção é semelhante. “Algumas atividades já existiam, mas a chegada do Sebrae trouxe um novo olhar sobre gestão e criação de experiências. Isso fez toda a diferença”, afirma Samara Pineschi.

Para a secretária municipal de Turismo e vice-prefeita, Edméia Alkmin, um dos marcos desse processo foi a criação do Catálogo de Experiências Turísticas de Delfim Moreira, desenvolvido a partir de um ciclo de capacitações voltado aos empreendedores locais.

“Olha, o Sebrae é o que tem nos ajudado no fortalecimento dos negócios no município. Nós temos o Catálogo de Experiências Turísticas, que foi o resultado de um ciclo de capacitação que o Sebrae realizou aqui em Delfim Moreira com os empreendedores. Nele os turistas encontram locais, indicações, fazendas, mirantes, restaurantes, tudo para aproveitar nossa terra como deve ser”, afirma a secretária.

Foto: Iago Almeida

O futuro nasce das raízes

Mais do que abrir propriedades para visitação, os empreendedores de Delfim Moreira abriram novas possibilidades para o desenvolvimento econômico local.

Ao transformar fazendas, olivais, queijarias, restaurantes e áreas naturais em experiências turísticas, eles encontraram uma forma de gerar renda sem abandonar aquilo que sempre definiu a identidade do município: a vida no campo.

Em uma das regiões mais frias do Brasil, o turismo de experiências vem aquecendo a economia, valorizando produtos locais e fortalecendo a conexão entre visitantes e a cultura da Mantiqueira.

Em Delfim Moreira, a ruralidade deixou de ser apenas uma característica do território. Tornou-se um dos seus maiores patrimônios e uma poderosa ferramenta de desenvolvimento.

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