Mãe denuncia que filho autista de 10 anos foi agredido pelo pai e registra BO

Em depoimento à polícia, pai disse que queria corrigir o filho, pois a criança teria "ficado agressiva e tentado desferir um soco" contra ele; imagens mostram hematomas na criança.

Iago Almeida / 15 setembro 2026

O vídeo mostra um menino de 10 anos chorando, assustado e pedindo ajuda à mãe. Nas imagens, divulgadas pela família nas redes sociais, ele aparece bastante abalado e chega a pedir que a polícia seja chamada. A gravação teria sido feita depois que a criança retornou da casa do pai, em Pouso Alegre, no Sul de Minas.

Segundo a mãe, Thais Rocha, o filho havia ido passar o fim de semana com o pai. Cerca de uma hora depois, teria ido correndo para a casa do padrasto (que segundo a mãe mora na mesma rua do pai), onde pediu ajuda e contou que havia sido agredido.

“Meu filho suado, tremendo, que eu fui tentar acudir, porque ele estava vomitando”, contou Thais ao Terra do Mandu. De acordo com ela, ao retirar a roupa do filho para dar banho, percebeu marcas pelo corpo.

Mãe denuncia que filho autista foi agredido pelo pai e registra BO

Imagem cedida pela mãe

“Eu vi as marcas de agressão no corpo do meu filho, de borracha, que ele apanhou de borracha e chineladas. Eu tive que tomar uma providência”, relatou.

No boletim de ocorrência, a própria criança contou para a polícia que o pai utilizou uma mangueira e uma chinela para bater nele, além de dar tapas no rosto. O registro também relata que a criança apresentou dois episódios de vômito depois de retornar para casa.

Parte do boletim de ocorrências registrado pela PMMG / Imagem cedida pela mãe

O que diz o boletim de ocorrência

A Polícia Militar foi acionada e registrou a ocorrência. A criança foi encaminhada para atendimento na UPA Central de Pouso Alegre, onde, conforme o boletim, uma médica pediatra constatou diversas lesões e elaborou um relatório médico que foi anexado ao registro.

O menino também passou pelo procedimento de corpo de delito, segundo a mãe. “Lá foi constatada as agressões físicas, não só físicas, como psicológicas também, no corpo do meu filho. E eu dei a entrada com um boletim de ocorrência contra o genitor”, afirmou Thais.

Parte do boletim de ocorrências registrado pela PMMG / Imagem cedida pela mãe

Laudo médico registrado pela PCMG após atendimento na UPA de Pouso Alegre/MG / Imagem cedida pela mãe

Laudo médico registrado pela PCMG após atendimento na UPA de Pouso Alegre/MG / Imagem cedida pela mãe

O pai também apresentou sua versão à Polícia Militar. Segundo o boletim, ele contou que o filho havia ido passar o fim de semana em sua casa e que, em determinado momento, pegou uma bicicleta e saiu para a rua. Quando retornou, o pai afirmou que questionou o menino sobre o motivo de ter saído.

Ainda conforme o relato apresentado pelo homem à polícia, a criança teria ficado agressiva e tentado desferir um soco contra ele. O pai afirmou que, como forma de corrigir o filho, pegou uma chinela e deu alguns golpes na criança.

Parte do boletim de ocorrências registrado pela PMMG / Imagem cedida pela mãe

Mãe questiona forma de correção

Para Thais, a agressão não pode ser utilizada como forma de correção, especialmente diante das necessidades específicas do filho. “Ele tinha que ter acolhido, me informado. ‘Thais, está acontecendo isso e isso. Vamos mandar ele devolver a bicicleta, nós vamos sentar e entrar em um acordo, o que a gente pode estar fazendo melhor para o I.?’”, disse.

A mãe afirma que o filho é autista e possui outras condições que exigem acompanhamento. Segundo Thais, ele tem transtorno do espectro autista nível 1, TDAH, transtorno opositor desafiador e deficiência intelectual nível 1.

Para entender o comportamento de crianças autistas em situações de crise ou desregulação, o Terra do Mandu ouviu a psicóloga Caroline Godoy. Segundo a especialista, algumas crianças autistas podem ter mais dificuldade para compreender e administrar aquilo que estão sentindo.

“Muitas vezes, essas crianças não vão conseguir lidar com o que está acontecendo dentro delas e vão externalizar isso de uma forma um pouco mais equivocada. Então, elas podem se mostrar um pouco mais irritadas, um pouco mais agressivas, um pouco mais chorosas”, explicou Caroline.

A psicóloga afirma que o adulto tem papel importante nesse processo, ajudando a criança a entender o que está acontecendo e oferecendo ferramentas para que ela desenvolva a própria autorregulação.

“Quem oferece as ferramentas aos poucos e ajuda a criança a compreender o que está acontecendo e fornece as ferramentas para que ela vá aprendendo a lidar com ela mesma é o adulto que está ali”, afirmou. Caroline também ressaltou que esse processo exige paciência e entendimento.

Mãe denuncia que filho autista foi agredido pelo pai e registra BO

Imagem cedida pela mãe

Medida protetiva

Thais contou ainda que possui uma medida protetiva de urgência contra o pai da criança, relacionada a situações anteriores. “Após nove meses de separação, ele invadiu a minha casa também, tanto que aí eu solicitei a medida protetiva”, relatou.

Segundo o boletim de ocorrência, a mãe afirmou que não teve contato pessoal com o homem no dia do episódio. A criança teria ido sozinha até a residência paterna para passar o fim de semana.

Por meio de nota, a advogada da mãe, Yasmim Ribeiro, informou que estão sendo tomadas “todas as medidas judiciais cabíveis”. Segundo ela, neste momento, a prioridade é a saúde e o acompanhamento da criança junto às instituições responsáveis.

A advogada também afirmou que as medidas protetivas e de urgência estão sendo cumpridas e que cabe ao Ministério Público avaliar a apresentação de eventual denúncia formal.

Caso será investigado

O pai, em flagrante, foi encaminhado para à autoridade policial. A ocorrência foi registrada pela Polícia Militar e deverá ser analisada pela Polícia Civil, que poderá reunir os depoimentos, documentos médicos e demais elementos para esclarecer o que aconteceu.

O Terra do Mandu não conseguiu contato com o pai para uma manifestação além da versão registrada no boletim de ocorrência. O espaço permanece aberto para que ele ou sua defesa se pronunciem.

A reportagem preserva a identidade da criança em razão de sua idade.

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