
Ativistas da Flotilha Global Sumud ajoelhados durante prisão ilegal por Israel (Foto: Reprodução X / Itamar Ben-Gvir)
Uma ativista sul-mineiro e mais três brasileiros estão detidos desde a interceptação de uma flotilha humanitária por Israel em águas internacionais, na segunda-feira (18/5). Segundo organizações que acompanham o caso, Cássio Guedes Pelegrini Júnior, de 38 anos, e os integrantes ficaram sem contato com advogados e sem acesso consular.
“Nosso querido Cássio foi sequestrado! Ele estava a caminho da Palestina, em águas internacionais, a bordo do barco Hawsha (Cabo Blanco), que faz parte da Global Sumud Flotilla, quando a embarcação foi interceptada ilegalmente pelas forças de ocupação israelenses. Cássio é pediatra brasileiro e embarcou na missão para levar ajuda aos profissionais de saúde e às crianças na Faixa de Gaza. A transmissão das câmeras do barco caiu. Estamos trabalhando ativamente para confirmar a segurança e a situação de todos os participantes a bordo”, disse uma publicação no perfil de Cássio no instagram, monitorado por um amigo.
Cássio é natural de Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, mas atualmente mora em São Paulo. O Terra do Mandu conversou com a irmã dele, que deu detalhes do caso, e diz que aguarda a chegada do irmão nas próximas horas em território brasileiro. Isso porque, segundo representantes da Flotilha Global Sumud, os ativistas sequestrados estão sendo soltos por Israel e já estão à caminho de casa.
“Os 428 ativistas da Flotilha, sequestrados por Israel, estão sendo soltos. Alguns já estão a caminho de casa e a maior parte será deportada para a Turquia. Essa vitória é fruto da pressão internacional, depois da publicação de Itamar Bem-gvir, ministro israelense, torturando e humilhando os reféns. O mundo viu o sadismo nos olhos desse carniceiro e de seus soldados. A luta não acabou”, escreveu Mandi Coelho, ativista brasileira e pré-candidata a Deputada Federal.

Natural de Santa Rita do Sapucaí, Cássio é médico pediatra e completará 39 anos nos próximos dias
A Global Sumud Flotilla (@globalsumudflotilla) é uma missão humanitária internacional e movimento de ativismo civil marítimo formado por ativistas de dezenas de países, incluindo o Brasil, cujo objetivo é romper o bloqueio ilegal de Israel sob Gaza e leva ajuda humanitária aos palestinos.

Vídeos publicados em redes sociais mostram os ativistas sequestrados por Israel, de joelhos, com as mãos amaradas, sendo torturados por soldados israelenses. A cena repercutiu no mundo todo, fazendo com que países criticassem Israel pela situação.
Foram cerca de 428 ativistas sequestrados na segunda-feira, entre médicos, advogados, engenheiros e mais profissionais. O santarritense Cássio é médico pediatra. Ele chegou a deixar um vídeo gravado, que foi publicado em suas redes sociais por um amigo, quando ele foi capturado em alto mar.
“Se você está assistindo esse vídeo, isso quer dizer que eu fui sequestrado em águas internacionais, pelo exército de ocupação de Israel, violando o direito internacional. Me juntei com Flotilha Global Sumud na intenção de levar ajuda humanitária à Gaza. Segundo a ONS, cerca de 120 mil crianças passam fome na faixa de Gaza neste momento. Isso tem que acabar”, citou Cássio, no vídeo.

Prints de stories do instagram do médico Cássio – @teknopagano

Prints de stories do instagram do médico Cássio – @teknopagano
Além de Cássio, os brasileiros que estão junto dos sequestrados são Beatriz Moreira de Oliveira, Ariadne Teles e Thainara Rogério. O Itamaraty informou ao Portal g1 que o “Brasil demanda libertação imediata de todos os ativistas detidos, incluindo de quatro cidadãos brasileiros, assim como pleno respeito a seus direitos e a sua dignidade, em linha com os compromissos internacionais assumidos pelo Estado de Israel”.

Relatora da ONU detalha torturas
A tortura contra crianças, mulheres e homens palestinos é sistemática, generalizada e se tornou doutrina de Estado em Israel, afirma a relatora especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese.

Em relatório publicado na última semana, Albanese sustenta que a prática tem apoio dos altos escalões do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, além da própria sociedade civil, sendo parte de uma dominação colonial e uma arma do genocídio em curso contra o povo palestino.
“Além do aparato estatal, profissionais da saúde, autoridades religiosas, jornalistas, acadêmicos, figuras públicas e outros segmentos da sociedade contribuíram para a retórica, o consentimento e as condições operacionais que sustentam essas violações”, diz o relatório.
Apesar de destacar que a tortura sempre foi praticada contra os palestinos em Israel, ela teria ganho mais recentemente uma escala sem precedentes e uma legitimação social que perpetua a impunidade.
“O que antes funcionava nas sombras agora é praticado abertamente: um regime de humilhação, dor e degradação organizadas, sancionado nos mais altos escalões políticos”, completa a relatora da ONU para os territórios palestinos.
O documento afirma que as torturas, praticadas inclusive contra crianças, vão desde estupros, fome induzida, privação de sono, queimaduras com cigarros, afogamento simulado, espancamentos, exposição ao frio e choques elétricos, até uso de cães de ataque. Os detidos são descritos como “esqueletos humanos”.
“Oficiais israelenses urinam nos detidos. Militares israelenses cometeram estupro, incluindo estupro coletivo, frequentemente envolvendo objetos como barras de ferro, cassetetes e detectores de metal. Detentos são submetidos a espancamentos e choques elétricos nos genitais ou no ânus”, descreve Albanese.
A tortura também seria praticada contra crianças, que vem sendo detidas de forma “administrativa”, ou seja, sem acusação formal “e lhes é negado o contato com a família e o acesso significativo a advogados, inclusive durante interrogatórios”.
Albanese calculou que, desde outubro de 2023, Israel prendeu mais de 18,5 mil palestinos, incluindo ao menos 1,5 mil crianças. Em fevereiro deste ano, Israel mantinha 3,3 mil presos sem acusação e outras 4 mil pessoas teriam sido submetidas a desaparecimento forçado, “e é provável que muitas tenham falecido”.
O relatório ainda denuncia que tem sido negado o acesso de advogados dos presos e organizações humanitárias aos centros de detenção.