Escritora vítima de violência doméstica lança livro para ajudar outras mulheres

Thays Cezar conta histórico de violência em relacionamento de 15 anos e como conseguir romper ciclo violento. Psicóloga e ONG mostram formas de buscar ajuda.

Nayara Andery / 02 abril 2026

Thays Cezar é uma mulher que rompeu o ciclo de violência doméstica após um relacionamento de 15 anos. Ela conta que o ex-marido usava drogas, o que piorava o ciclo de violência familiar. Os feminicídios e outros estágios da violência doméstica crescem ao longo dos anos no Brasil.

A escritora e mãe quer ajudar outras mulheres a se libertarem desse ciclo. Ela escreveu o livro ‘Como Ajudar Quem Precisa de Ajuda’, que será lançado neste sábado (04/4), em Pouso Alegre.

A obra conta detalhes do caminho que ela enfrentou e traz esperança para mulheres vítimas de violência. “Como mulher, a gente sofre a violência muitas vezes calada, porque a gente é julgada, tem preconceito, fala que a gente é sem vergonha, que a gente está porque a gente quer, mas não é, é muito complicado.”

Ela morava em São Paulo e ao dar um basta no relacionamento há quatro anos, se mudou para Pouso Alegre, com apoio da irmã que é psicóloga, Fabiana Cezar. Ela compara a mudança, a um refugiado em busca de uma nova vida.

“Tive que vender minha casa e mudar de cidade para conseguir quebrar esse ciclo. A gente não quer acreditar que o agressor não vai mudar, que o homem que a gente escolheu pra viver a nossa vida está fazendo mal pra gente. Como sair disso? Como acreditar que a gente escolheu alguém errado, enfrentar um futuro sem o pai dos filhos?”

A mulher perceber que é vítima dessa violência seja verbal, moral, sexual, psicológica ou financeira é o primeiro passo. É importante buscar ajuda para sair do ciclo de abuso.

Em 2025, 1.568 mulheres foram mortas em feminicídios, aponta estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Crime extremamente cruel, que na maioria das vezes tem como antecedente a violência doméstica, crescente no país.

Como quem passou por esse crime, Thays alerta que as mulheres “não escolhem isso. É um ciclo que a gente realmente precisa desatar o nó”. É preciso que vítimas e sociedade tenham consciência que as mulheres precisam de ajuda, de rede de apoio.

“O livro vem trazendo essa proposta de como eu consegui sair, como eu consegui me conscientizar. Demorou anos justamente porque eu não achava esse apoio em algum lugar.” Cada capítulo traz parte da história da escritora para romper o ciclo de violência, diferentes formas de buscar ajuda, reflexão e orações.

O lançamento será em evento às 19h, no galpão da Igreja Renovação, na Rua Ivan Barroso. Será um evento com palestra sobre dependência emocional, atendimento de ONG de apoio às vítimas e representantes de clínicas para quem busca tratamento para dependência química.

“Muitas pessoas não entendem. A primeira coisa que a gente sente como a vítima é um olhar de desprezo, como se a gente estivesse vivendo algo que a gente escolhe. E a gente não escolhe isso. A gente realmente só quer ser feliz.”

Perceber sinais e buscar ajuda

Até mesmo um familiar ou amigo que percebe que a mulher sofre violência pode tentar ajudar ela. Após ela entender que se vive um relacionamento tóxico, que violência não é amor, é importante ter apoio para sair dessa situação.

Denunciar o agressor à polícia, solicitar medida protetiva se preciso são alguns dos caminhos. Ter apoio psicológico, familiar, social e até econômico estão entre as necessidades mais comuns e são direito dessas mulheres.

A psicóloga Fabiana fala que o comum de relacionamentos tóxicos ou violentos é que a pessoa se anula, perde a própria identidade, vontades, não se reconhece mais ou descobre o que é gosta ou é capaz de fazer. Seja pela dependência emocional que o agressor causa, por ameaças.

“A pessoa começa a se sentir mal, a fazer tudo em favor daquela pessoa, não tem mais vontade de ter vida. É uma grande teia e começa a engolir realmente. Os primeiros sintomas são insegurança, medo de abandono, um medo de perda, de como ela vai viver sem aquela situação.

Tentar evitar chegar ao limite de destruição da autoestima, de anulação é importante. É “a pessoa buscar primeiramente ajuda, e principalmente ajuda de um psicólogo, ajuda de uma instituição, que ali vai começar a ensinar essa pessoa a viver novamente, a acordar, a realmente começar a perceber que ela é uma pessoa importante”

Instituições como a Associação CETUC que oferece atendimento gratuito às vítimas de violência e pessoas em vulnerabilidade, com psicólogo, assistente social e oficinas de profissionalização. O trabalho de prevenção e de combate visa mostrar um novo caminho e ajudar a dar os primeiros passos, conta a presidente Juliana Galvão.

“Trabalhamos a violência doméstica que está em alta, onde os altos índices. Temos aqui atendido várias demandas dessas mães, dessas mulheres que estão passando, sofrendo com essa situação e muitas das vezes não sabem o lugar onde ser atendida.”

O atendimento é nas tardes de terça a sexta-feira. A CETUC fica na Rua Maria Divina Soares, 10, ao lado da ponte do bairro São Geraldo. O telefone é (35) 99723-7235.

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