Região

Vinícola no Sul de Minas transforma tradição, ciência e mercado em negócio sustentável

Vinícola Stella Valentino, de Andradas, aposta em conhecimento técnico, enoturismo e visão empreendedora para fortalecer a vitivinicultura mineira

Iago Almeida / 18 fevereiro 2026
Vinícola no Sul de Minas transforma tradição, ciência e mercado em negócio sustentável

Foto: Divulgação Sebrae

Entre as montanhas de Andradas, no Sul de Minas Gerais, uma história centenária ganha novo fôlego a cada safra. Nesse cenário de solo de origem vulcânica, José Procópio Stella decidiu transformar memória familiar, conhecimento técnico e paixão pelo vinho em um projeto vitivinícola com identidade própria. À frente da vinícola Stella Valentino, conduz um negócio estruturado desde o vinhedo, aprimorado na adega e consolidado na experiência oferecida ao visitante.

Agrônomo por formação e viticultor por vocação, José Procópio cresceu entre parreiras plantadas por antepassados italianos, chegados à região no final do século 19. A uva sempre integrou a paisagem e a rotina da família, ainda que, por décadas, o vinho tivesse apenas consumo doméstico. Após longa trajetória profissional fora da propriedade, decidiu retornar com o propósito de produzir melhor, apoiado em método, pesquisa e visão de futuro.

“Eu sabia que dava para produzir um vinho diferente aqui, desde que respeitássemos o campo e entendêssemos o mercado”, resume. A decisão marcou uma nova fase, na qual tradição e inovação caminham juntas. Mais do que elaborar vinhos finos, o produtor passou a estruturar um modelo de vinícola familiar sustentável, ancorado no rigor técnico e em leitura atenta das oportunidades do setor.

Vinícola no Sul de Minas transforma tradição, ciência e mercado em negócio sustentável

Foto: Divulgação Sebrae

Tradição italiana enraizada no território mineiro

A história da vinícola Stella Valentino se confunde com a cultura de produção de vinhos de Andradas. A família Stella chegou ao Brasil em 1888, vinda do Vêneto, no Nortoeste da Itália, e iniciou sua trajetória no cultivo do café. Em 1910, adquiriu a propriedade onde, além da cafeicultura, passou a plantar uvas e a produzir vinho de forma artesanal, voltado ao consumo próprio.

Ao longo do século 20, a produção local atravessou ciclos de expansão e retração, acompanhando transformações econômicas e tecnológicas. Mesmo assim, a uva permaneceu na rotina da família, fato determinante para a retomada mais estruturada da atividade.

No início dos anos 2000, de volta à propriedade, o produtor encontrou um território fértil não apenas em solo, mas em memória produtiva. A partir desse contexto, iniciou uma transição cuidadosa, respeitando a tradição italiana e incorporando inovação de forma planejada, sem romper com a identidade familiar e regional.

Vinícola no Sul de Minas transforma tradição, ciência e mercado em negócio sustentável

Foto: Divulgação Sebrae

Do vinhedo ao vinho fino, com método e identidade

A qualidade dos vinhos finos produzidos na Stella Valentino está diretamente associada à adoção pioneira da técnica da dupla poda, desenvolvida pelo pesquisador Murilo Regina, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e aplicada, pela primeira vez no estado, na propriedade da família Stella. O método inverte o ciclo produtivo da videira e permite a colheita no inverno, período mais seco e favorável à maturação das uvas viníferas.

A técnica reduz riscos climáticos, melhora a sanidade dos cachos e estabelece relação direta entre o manejo da uva e a qualidade do vinho, viabilizando a produção de vinhos finos no terroir sul-mineiro. A escolha criteriosa das variedades, aliada ao controle e período de colheita, transforma o cultivo em etapa estratégica do negócio.

A partir dessa base técnica, novas variedades passaram por anos de avaliação agronômica antes de chegar ao consumidor. “Primeiro analisamos a adaptação da planta; depois, a vinificação em pequena escala; e, por fim, a resposta do público. Nem tudo vira rótulo”, explica.

Esse rigor se estende à vinificação. Cada vinho é tratado como projeto técnico específico, com definição de temperatura de fermentação, leveduras, tempo de maturação e tipo de rolha, conforme o perfil desejado. Com produção anual entre 15 mil e 18 mil garrafas, a vinícola mantém perfil familiar, com foco em consistência, identidade e alta qualidade.

Vinícola no Sul de Minas transforma tradição, ciência e mercado em negócio sustentável

Foto: Divulgação Sebrae

O terroir sul-mineiro traduzido em medalhas

A conexão entre manejo criterioso e decisões técnicas tem se refletido no reconhecimento da qualidade dos vinhos produzidos. O terroir mineiro, com elevada incidência solar, altitude favorável e solo rico de origem vulcânica, contribui para a maturação equilibrada das uvas e para vinhos mais estruturados e expressivos.

Esse conjunto de fatores ganhou destaque em concursos especializados. O Tempranillo 2022 foi o grande campeão da categoria Tempranillo no All The Best – Grande Prova de Vinhos do Brasil 2025, com 93 pontos e medalha Duplo Ouro. Já o Tempranillo Gran Reserva 2023 conquistou medalha de Ouro no Brasil Selection 2025, edição brasileira do Concours Mondial de Bruxelles.

As premiações reforçam não apenas a qualidade dos rótulos, mas o potencial da vitivinicultura mineira quando associada à técnica, à pesquisa e à identidade territorial. “O reconhecimento é consequência de um trabalho que começa no campo e respeita o tempo do vinho”, afirma.

Experiência e degustação como estratégia

A vivência no setor levou o produtor a uma leitura objetiva do mercado de vinhos no Brasil. A produção de vinhos finos, sobretudo em pequena escala, envolve custos elevados e margens ajustadas. Desde o início, a estratégia foi estruturar a vinícola como negócio integrado, capaz de gerar valor além da garrafa.

Nesse contexto, o enoturismo tornou-se elemento central. Degustações orientadas e venda direta ao consumidor ampliam a receita e fortalecem o vínculo com o público. Seguindo esse modelo, a Stella Valentino recebe cerca de 600 turistas por mês.

Para o futuro, a atenção está voltada à ampliação de experiências – com a inauguração de um wine bar – ainda no 1º semestre de 2026 -, desenvolvimento de variedades mais resistentes e produtivas, com potencial para reduzir custos e ampliar o acesso a vinhos de entrada. “Se conseguirmos unir qualidade técnica e preço mais acessível, o mercado cresce junto”, avalia.

Vinícola no Sul de Minas transforma tradição, ciência e mercado em negócio sustentável

Foto: Divulgação Sebrae

Sustentabilidade como diretriz produtiva

O compromisso ambiental também integra a estratégia da propriedade. A Stella Valentino possui certificação Selo Pró-Ambiente ESG, reconhecimento destinado a empreendimentos que adotam práticas sustentáveis. Na vinícola, os resíduos da vinificação são reaproveitados e áreas são reflorestadas, em um trabalho contínuo de preservação dos recursos naturais e uso responsável do território.

Apoio institucional e acesso a mercados

Projetos como o da Stella Valentino se integram à atuação do Sebrae Minas no fortalecimento de vinícolas familiares e pequenos negócios do agro. A entidade orienta produtores por meio de capacitações, incentivo à inovação e ações voltadas à ampliação de mercado. “O apoio do Sebrae Minas contribui para a inserção da vinícola em espaços estratégicos e amplia a visibilidade dos rótulos. A participação em feiras e eventos do setor, como o Origem Vulcânica, aproxima o consumidor final da nossa produção, valoriza os produtos do Sul de Minas e estimula o enoturismo”, conclui.

Conheça mais sobre a vinícola Stella Valentino em @vinicolastellavalentino.

Texto: Luciana Trindade – Sebrae MG

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